segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ditadura da Grande Mídia: quais os interesses dos "barões das comunicações" no Brasil e no mundo?

Debate da UJS - Quarta 02/2009 - Departamento de Economia Rural - UFV.



Ditadura da Grande Mídia


quais os interesses dos "barões das comunicações" no Brasil e no mundo?








Textos auxiliares:

Mais textos visitem: http://www.vermelho.org.br/noticias.php?id_secao=6&lista=lista&pagina=1

Gilson Caroni: Ibope, Globo, Folha e a metodologia do golpismo

Desde as eleições presidenciais de 1989, os "magos" de institutos de pesquisa são tratados pela grande imprensa como grãos-senhores da opinião pública, cientistas políticos dotados do preceito positivista da infalibilidade. Era de se esperar que os especialistas adulados soubessem que cair no canto da sereia midiática pode conduzir suas naus à boca do Adamastor ou espalhar-se no invisível Cabo das Tormentas.

Por Gilson Caroni Filho, no Observatório da Imprensa

A entrevista concedida pelo presidente do Ibope Carlos Augusto Montenegro à revista Veja (edição 2127, de 26/8/2009) bate de frente com o rochedo da verdade, lançando uma nuvem de suspeita sobre os rigores científicos de futuras pesquisas, seus modelos matemáticos e estatísticos.

Ao afirmar que "sem o surgimento de novas lideranças no PT e com a derrocada de seus principais quadros, o presidente se empenhou em criar um candidato, que é a Dilma Rousseff. Mas isso ocorreu de maneira muito artificial. Ela nunca disputou uma eleição, não tem carisma, jogo de cintura nem simpatia", Montenegro incorreu em erro primário. Ou o narcisismo excedeu os limites toleráveis, ou a má-fé já não se preocupa em vestir disfarces.

Um "pesquiseiro" pode ter uma expectativa a priori sobre os resultados (ou ninguém testaria hipóteses) e expô-la ao cliente – confidencialmente. Até deve, se achar que não é recomendável gastar tempo, dinheiro e esforço com pesquisa redundante. Mas não é disso que tratamos. É de coisa bem distinta. É do que diz o presidente de uma instituição com conhecidos vínculos com corporações midiáticas a uma revista que não esconde o protofascismo de sua linha editorial.

Dados, só com sondagem realizada

Ao emitir juízo de valor sobre a ministra Dilma que, apesar das evidências, ainda não confirmou sua pré-candidatura, o analista incorreu em duplo erro: ético e metodológico. Quando diz que Dilma não dispõe de carisma, simpatia ou jogo de cintura, Montenegro parece ter se esquecido que sua empresa vai ser solicitada a fazer pesquisa de opinião sobre o objeto dos comentários. Suas afirmações podem criar uma pré-percepção de predisposição. O que, convenhamos, é um desastre para a credibilidade do grupo que preside.

Em outro trecho, quando perguntado pelo jornalista Alexandre Oltramari sobre as possibilidades das candidaturas aventadas até o momento, o economista, habituado a realizar pesquisas em diversos setores, vaticina: "Faltando um ano para as eleições, o governador de São Paulo, José Serra, lidera as pesquisas. Ele tem cerca de 40% das intenções de voto. Em 1998, também faltando um ano para a eleição, o líder de então, Fernando Henrique Cardoso, ganhou. Em 2002, também um ano antes, Lula liderava – e venceu. O mesmo aconteceu em 2006."

Lorota. Em 1994, pesquisa sobre intenção de voto do Datafolha dava 41% para Lula contra 19% para FHC. O tucano ganhou o pleito no primeiro turno. Em 1998 e 2006 tivemos reeleições e os favoritos eram os candidatos a elas, respectivamente FHC forte (cf. "estelionato cambial") e Lula, se não diretamente enfraquecido, pelo menos alvejado pelo "mensalão". Coisa bem diferente de agora.

Montenegro deveria saber que só tem que apresentar dados em cima de um parecer quantitativo que foi extraído de sondagem efetivamente realizada. Do contrário, como faz nessa entrevista, parece querer induzir futura pesquisa ou dar uma opinião pessoal, já dizendo, mesmo antes de fazê-la, qual vai ser o resultado. Conspiracionismos à parte, algo soou estranho nas "amarelinhas" da revista dos Civita.

Uma notinha indispensável

Nossa grande imprensa progride. Já havia abandonado a verdade factual para fazer campanha. Agora, faz pouco da verdade textual também.

A Folha de S.Paulo ("Apoio de petistas a Sarney é insustentável, diz Marina", 23/08, página A4) falseia (deliberadamente?) as palavras da senadora Marina Silva.

Diz o texto de Marta Salomon: "[Marina Silva] lançou mão de personagens da Bíblia para comparar a candidatura Dilma Rousseff e uma candidadtura pelo PV à luta entre o gigante Golias e Davi." Diz a senadora: "(...) não imagino que a candidatura do PT é Golias e nem tenho a pretensão de ser o Davi (...)." Portanto, e ao contrário do afirmado no texto redacional, a senadora "lança mão de personagens da Bíblia" para expor como descabida tal comparação.

O Globo já foi obrigado, no sábado [22/8], a se retratar pela manchete falsa da véspera, denunciada pela senadora no plenário do Senado, com transmissão ao vivo pela emissora da Casa. A Folha, que tem por política não se retratar de falsidades, vai esperar também ser – merecidamente – denunciada de público?

A profissão de fé jornalística nunca esteve tão em alta.


Globo X Record; precisamos de uma CPI da mídia

"A lavagem de roupa suja entre as duas maiores emissoras do país [...] cria a oportunidade ideal para as forças organizadas da sociedade, engajadas na luta pela democratização da comunicação, também exigirem a instalação de uma CPI para averiguar tais irregularidades", escreve Altamiro Borges em seu blog.* Confira a íntegra

A “guerra nada santa” travada entre as TVs Globo e Record comprova que existe algo de muito podre no reino dos poderosos e impenetráveis impérios midiáticos do país. Os barões da mídia, por razões políticas e na busca por audiências sensacionalistas, adoram impor a instalação de Comissões Parlamentares de Inquéritos. A “presunção de culpa” se sobrepõe à “presunção da inocência”, inscrita na Constituição, e reputações são jogadas na lata de lixo da noite para o dia. A agenda política fica contaminada pelo denuncismo vazio, que rende pontos no Ibope e novos anunciantes, e que ofusca o debate sobre os problemas estruturais da democracia brasileira.

O processo sui generis de concentração da mídia nativa e sua alta capacidade de manipulação de corações e mentes são, de fato, graves atentados à democracia. A lavagem de roupa suja entre as duas maiores emissoras do país, num caso inédito de transparência no setor, revela que há muito a se apurar sobre a ditadura midiática.

Ela cria a oportunidade ideal para as forças organizadas da sociedade, engajadas na luta pela democratização da comunicação, também exigirem a instalação de uma CPI para averiguar tais irregularidades. Impõe a vários parlamentares, hoje alvos da fúria midiática, uma revisão deste poder descomunal. E não faltam motivos para esta justa demanda.

A sensível questão religiosa

Liderando uma “cruzada” que reúne os jornalões Folha e Estadão e a revista Veja, a Rede Globo tem exibido para milhões de telespectadores várias denúncias contra a sua principal concorrente. Com base numa denúncia do Ministério Público de São Paulo contra Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), a TV Globo tem apresentado exaustivamente matérias que comprovariam formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Willian Bonner e Fátima Bernardes, o casal-âncora do Jornal Nacional, o noticiário de maior audiência no país, não se cansa de mostrar os vínculos entre o Edir Macedo e a Rede Record.

As reportagens globais também procuram explorar a sensível questão religiosa, acusando a Iurd, que possuí 8 milhões de fiéis no Brasil e igrejas espalhadas por 174 países, de desviar dinheiro das doações para compra de imóveis suntuosos, carros importados e emissoras de rádios e TV. “Edir Macedo deu outro destino ao dinheiro doado à Igreja Universal”, acusou Fátima Bernardes no Jornal Nacional. Com várias imagens das pregações feitas nos cultos, a TV Globo insiste que “a religião é apenas um pretexto para a arrecadação de dinheiro”. Os ataques são duros e diários.

Golpismo e irregularidades

Como resposta, a TV Record tem exibido para milhões de brasileiros inúmeros fatos irrefutáveis que só uma minoria conhecia. Aproveitando-se da vulnerabilidade política da concorrente, ela mostrou que a Rede Globo é cria da ditadura militar e que construiu seu império graças ao apoio decidido dos generais golpistas. Celso Freitas e Ana Paula Padrão, os âncoras do Jornal da Record, que já estiveram do outro lado do front, lembraram as fraudes para impedir a vitória de Leonel Brizola ao governo do Rio de Janeiro, as manobras para esvaziar a mobilização popular pelas Diretas-Já, a fabricação do “caçador de marajás” e as várias investidas para desestabilizar o governo Lula.

Mas a TV Record não ficou somente no campo da política – como a concorrente também não se limitou à discussão religiosa. Ela também apresentou inúmeras denúncias de irregularidades. Já na sua origem, o acordo misterioso com a empresa estadunidense Time-Life, numa transação que era proibida pela lei brasileira e que rendeu milhões de dólares à TV Globo. Depois, na aquisição suspeita da TV Paulista, num negócio com documentos falsos. O ex-ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, também garantiu numa entrevista que a Globocabo contraiu empréstimos irregulares na Caixa Econômica Federal e no BNDES, em 1999, no valor de R$ 400 milhões. Outra bomba foi a denuncia de que a TV Globo ocupa um terreno da Secretaria de Planejamento de São Paulo, numa relação promíscua com o governo tucano de José Serra.

Apuração rigorosa das denúncias

Como se observa, as denúncias de ambos os lados são graves e exigem rigorosa apuração. Em função da “guerra nada santa” entre as duas principais emissoras de televisão do Brasil, o tema hoje está na boca do povo – o que é saudável para a democracia.

Uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a mídia contribuiria para investigar a veracidade dos fatos. Além disso, a CPI seria uma importante alavanca para o debate sobre a urgência da democratização dos meios de comunicação no país. Afinal, as emissoras privadas usufruem de uma concessão pública. Elas não podem ficar acima das leis, da Constituição e da Justiça.

Fonte: http://altamiroborges.blogspot.com/




Mauricio Dias: Uma imprensa antidemocrática

A imprensa brasileira tem sido adversária histórica das instituições representativas do País.” Essa frase, um dos mais duros veredictos já feitos sobre a imprensa brasileira, é de Wanderley Guilherme dos Santos, professor aposentado de teoria política da UFRJ, fundador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj) da Universidade Candido Mendes, e consagrado pela Universidade Autônoma do México, em 2005, um dos cinco mais importantes cientistas políticos da América Latina.

Ela é parte do começo de uma conversa em torno da histórica tendência golpista da imprensa brasileira, que começa assim: “Com o fim da Segunda Guerra Mundial terminou também o Estado Novo brasileiro, ditadura civil que se iniciara em 1937. No mundo todo, mas em particular no Brasil, as elites políticas tradicionais se viram acompanhadas por um eleitorado em torno de 7 milhões, mais de dez vezes superior ao da Primeira República, e um movimento sindical legalizado e participante de algumas estruturas estatais, como os institutos de pensões e aposentadorias dos trabalhadores urbanos”.

Segundo ele, a imprensa brasileira “sem embargo da retórica democrática”, tornou-se a principal adversária das instituições representativas.

“A exemplo de toda a imprensa, denominada grande, latino-americana, “jamais hesitou em apoiar todas as tentativas de golpe de Estado, quando estas significavam a derrubada de presidentes populares ou o fechamento de congressos de inclinação mais democrática”, denuncia Wanderley Guilherme.

“No Brasil – prossegue –, não existe um só jornal de grande circulação que se posicione a favor dos respectivos congressos nacionais, nas esparsas ocasiões em que estes parecem funcionar.”

Por outro lado, ele anota que “toda vez que a direita recrudesce nas urnas, sempre encontra a simpatia midiática”.

“No Brasil, o único período em que o governo contou com o respaldo de algum jornal de certa respeitabilidade foi durante o segundo governo Vargas, com a Última Hora. Não houve um único jornal popular, de grande circulação no Brasil, durante esse período”, diz Wanderley Guilherme.

Última Hora também foi o único reduto jornalístico contra o golpe de 1964, que toda a mídia apoiou. Sem qualquer constrangimento.

Conceitualmente, ele lembra, a imprensa, além de ser um instrumento de difusão de informação e análise, é um ator político “na medida em que forma opinião, agenda demandas e que, eventualmente, beneficia ou cria obstáculos para governos”.

Wanderley Guilherme comenta: “A imprensa brasileira exerce, e tem todo o direito, de ter opinião e preferências políticas. No Brasil, no entanto, ela diz que apenas retrata a realidade. É falso. Há muito da realidade que não está na imprensa e há muito do que está na imprensa que não está na realidade”.

Não é novidade no mundo democrático. Novidade, como explica Wanderley Guilherme, é presumir e passar a impressão de que isso não acontece.

“A imprensa brasileira não tolera a ideia de governos independentes, autônomos em relação às suas campanhas. Isso implica um caminho de duas mãos. Significa que ela terá de sobreviver sem os governos. Então, é preciso que os governos precisem dela”, conclui.

É um retrato do momento que o Brasil atravessa no alvorecer do século XXI.

Mauricio Dias é colunista da revista CartaCapital, onde este artigo foi publicado originalmente


Emerson Leal: A mídia e as bases dos EUA na Colômbia

El País é o principal jornal da Espanha. Algo assim como o Estadão ou a Folha de S. Paulo. É o jornal da elite dominante espanhola. Para variar, conservador e de direita também. No seu número de 03/08 traz duas matérias sobre a segunda fase do Plano Colômbia e as bases militares que os EUA vão instalar no país. Até aí, ‘tudo bem’. O impressionante é que um jornal do peso do El País analisa o problema única e exclusivamente pela ótica do governo colombiano e do Departamento de Estado americano.

Ou seja, é parcial e, portanto, não informa de fato. O jornal, pura e simplesmente, não expressa o ponto de vista da oposição ao presidente narcoterrorista Álvaro Uribe.

por EMERSON LEAL*

El País, por exemplo, não comenta o posicionamento da coligação de centro-esquerda liderada pelo senador Gustavo Petro, orador de peso que não tem medo de, em seus discursos, chamar Uribe de “terrorista de paletó e gravata”. El País não diz nada também sobre outro político colombiano de destaque – Rafael Pardo – que, ao criticar seu presidente no jornal El Espectador, se expressou assim sobre o problema: “As bases americanas podem ser interpretadas como ato hostil a países vizinhos”; e faz silêncio absoluto sobre as posições da senadora Piedad Córdoba que denuncia organizações paramilitares que, sob a proteção de Uribe, já assassinaram e desapareceram com centenas de dirigentes sindicais e militantes de esquerda na Colômbia.

El País supervalorizou a (des)informação de Uribe sobre as armas suecas ‘ultramodernas’ que o presidente Chávez teria repassado aos guerrilheiros das Farc. Tão ‘modernas’ que, há quase vinte anos atrás, quando elas foram vendidas ao então presidente venezuelano, já eram consideradas obsoletas na Suécia. El País não se deu sequer ao trabalho de publicar a versão de Chávez sobre a questão. Por outro lado, modernas mesmo são as armas que os EUA colocam à disposição de Uribe: são mais de US$ 5 bilhões, nessa segunda fase do Plano, grande parte para o maior exército da América latina – o colombiano.

Mas, não é só o jornalão espanhol que analisa o problema de forma tão parcial. Miriam Leitão, por exemplo, ao comentar a última reunião da Unasul – que Uribe boicotou – tentou justificar a atitude pusilânime do presidente colombiano. Começou por desvalorizar ao máximo o evento dizendo claramente que ele não serviu para nada e que os mandatários maiores da Região perderam seu tempo discutindo problemas ‘sem importância’, como o da instalação das bases. Pode?

A repórter da Globo ‘esquece’ de que a IV Frota norte-americana, cujo alcance chega ao Pré-Sal, foi reativada; que a Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e que os EUA assassinaram, direta ou indiretamente, dois milhões de iraquianos em duas invasões para roubar o petróleo do Iraque. Portanto, é imperioso que a Venezuela – que tem um exército inferior ao da Colômbia – se arme para evitar massacres semelhantes. Da mesma forma o Brasil, pois o Pré-Sal já está provocando a cobiça do Tio Sam.

Uribe tenta, agora, jogar na ofensiva. Diz que vai participar da próxima reunião da Unasul na Argentina em 28/08/2009 e que não admite ser questionado sobre as bases. Se o for – diz –, exigirá que se coloque na pauta da reunião três itens: “tráfico ilegal de armas; corrida armamentista na Região e terrorismo”. Tudo de acordo com a cartilha do Departamento de Estado dos EUA.

El País não disse nada também sobre a seguinte questão: o objetivo do Plano Colômbia seria combater as Farc e o tráfico de drogas. O levantamento feito por uma entidade européia independente contraria totalmente as informações de que, em sua primeira fase, o Plano teria sido “um êxito” na questão do tráfico – como afirmam Uribe e o Departamento de Estado norte-americano. Tudo mentira!

Os objetivos, como sempre, são geopolíticos. E Uribe, de ‘poodle’ de Bush que era, continua sendo um eficiente ‘poodle’ do Império Americano.


*Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de S. Carlos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Debate da UJS 26/08/2009 - Economia Rural - UFV

Golpe de Estado em Honduras.
O que está por traz desse novo ataque a democracia???




Na Próxima quarta a União da Juventude Socialista - Viçosa - MG, convida todos a participarem do debate "Golpe de Estado em Honduras", que será realizado no Departamento de Economia Rural da UFV a partir das 19:00. Como debatedor teremos o ex-diretor da OCLAE - Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes - Luciano Rezende.




Texto auxiliar:

Honduras: "Golpe levou ao povo consciência da luta de classe"

O golpe militar articulado pelas oligarquias nacionais hondurenhas fez com que o povo hondurenho se conscientizasse da luta de classes que existe em seu país. Este é o ponto de vista do líder da resistência pacífica ao golpe em Honduras, Gilberto Rios, que desde o início da investida militar tem articulado manifestações pacíficas em todo o país e, em visita ao Brasil nesta semana, concedeu entrevista exclusiva sobre o golpe.

Apesar de o presidente deposto Manuel Zelaya ter chegado a incitar o povo hondurenho a pegar nas armas para derrubar o governo militar, a resistência popular no país tem sido pacífica. Todos os dias, multidões saem de suas casas e unem-se nas ruas para manifestar contra o golpe, num movimento que, de acordo com Rios, não para de crescer. “Hoje geralmente tem 100 mil pessoas na rua, às vezes chega a meio milhão”, conta.

A mobilização, segundo Rios, não aumentou somente quantitativamente, mas também qualitativamente. “Antes da consulta (que foi o argumento dos militares para derrubar Zelaya), falava-se em aprofundar a democracia. Agora, fala-se em um governo sem oligarcas, fala-se da luta de classes”, aponta o militante. Brincando, ele diz que o golpe “ajudou a mobilização” do povo hondurenho.

Confira a íntegra da entrevista de Gilberto Ríos à Revista Fórum:.

Depois de quase dois meses do golpe em Honduras, como está a resistência do povo? Quais são os grupos sociais envolvidos?

Depois de 52 dias, quase dois meses de resistência, temos mais pessoas nas ruas, indo contra as previsões de que iria diminuir. Os trabalhadores principalmente, mas há muitos estudantes e também professores universitários, do primário e secundário, que se incorporaram ao movimento das ruas.

Mas, em nível nacional, é bastante diversa e ampla a participação que há. Na zona ocidental, por exemplo, há muita participação indígena. Na região onde o presidente estava há muitos aldeões, aos quais também se juntaram desempregados e pessoas que trabalhavam diretamente com o presidente.

Há o partido liberal, toda a esquerda está nas ruas, todos os movimentos sociais suspenderam seus trabalhos e agora estão dedicados somente ao protesto contra o golpe. Ao contrário do que esperávamos, o povo respondeu muito mais e cada vez vemos mais pessoas na luta. Hoje, geralmente um protesto tem 400 mil pessoas na rua, às vezes chega a meio milhão.

Como estão as condições do povo, agora depois do golpe?

No momento, não faltam suprimentos de alimentação, nem há nenhum problema com os serviços básicos. O que existe é uma forte censura de todos os meios de comunicação. Só se transmite a voz do Estado. É mais provável que os estrangeiros entendam mais do que está acontecendo em Honduras do que os próprios hondurenhos.

A manifestação midiática está alegre com a morte de civis, como no franquismo. A origem do golpe no fascismo é evidente. Na década de 1940, (Roberto) Micheletti foi à Itália para se juntar numa coluna de Mussolini. Mas hoje a população não está em condições mais precárias do que as que já vivia: pessoas com fome, que não têm sapatos e caminham todo dia nas ruas. Nós estamos buscando estratégias para hidratar as pessoas, para nutri-las melhor e vitaminar a luta.

A embaixada dos EUA já afirmou que pode ofertar armas à população caso ela queira se envolver no conflito armado. Por que a resistência se mantém pela via pacífica?

Para a indústria estadunidense não lhe serve a resistência pacífica. Só lhe interessa se houver demanda de armas e que haja conflito armado, porque isso contribuiria com a economia do país, que ultimamente não anda muito bem. Além do que, é uma boa retaguarda para a ofensiva que os Estados Unidos planejam contra a Venezuela. Para se ter uma idéia, Honduras corresponde a 0,3% da economia dos Estados Unidos, e eles representam para nós 80% de nossas exportações. Como se diz, o país que compra, manda, e o país que vende, serve.

Você acredita então que os Estados Unidos já sabiam do golpe e participaram dele?

Claro. Até a ultra-direita norte-americana disse que quem apoia e está se encarregando do golpe é a CIA. Precisamos lembrar que ainda enfrentamos uma escalada militar no Oriente Médio, que a própria população norte-americana não aprova.

Então se precisava de um novo espetáculo militar. Os Estados Unidos precisam de uma guerra em Honduras para intervir militarmente. Por isso continuamos mantendo a resistência pacífica. Em algum momento teremos que usar armas, mas em um momento específico.

Qual é sua avaliação do governo Zelaya? Havia uma caminhada em direção ao socialismo? Agora a alternativa é somente socialista?

Havia um processo de reforma capitalista importante, porque em Honduras a oligarquia tinha muito controle da economia e uma dominação tremendamente ideológica sobre a população. A oligarquia hondurenha concentra 90% da renda em torno de dez famílias. Houve três vias pelas quais se deu a acumulação de capital da oligarquia hondurenha: a primeira foi pelo roubo direto do Estado; a segunda foi pela superexploração; e a terceira foi pelo narcotráfico.

Antes da consulta, se falava em aprofundar a democracia. Agora, fala-se em um governo sem oligarcas, fala-se da luta de classes. Antes, as pessoas acreditavam na democracia, e o golpe introduziu nas pessoas a consciência de classe.

Então a consciência política do povo aumentou com a mobilização pós-golpe?

Sim. Pode-se dizer que, em porcentagem, as pessoas que participavam da resistência ao golpe e manifestavam-se nas ruas era muito baixo. Agora, a maioria das pessoas tem participado do debate político e está a favor das forças sociais mais importantes. Pode-se dizer que o golpe, do ponto de vista da esquerda, contribuiu enormemente para a incorporação de pessoas à luta.

Como está a ajuda internacional para o país? A maioria apoia o golpe ou a resistência?

Há dois tipos de ajuda internacional: a oficial, através do governo, que agora está paralisado porque nenhum governo do mundo reconhece o governo de Micheletti; e o apoio internacional à resistência. Basicamente o apoio à resistência é moral, e isso anima muito os hondurenhos a continuar nas ruas porque entendem que a luta exemplifica o que deve ser a luta popular contra ações como a que foi tomada pela oligarquia.

Houve participação da Igreja no golpe?

Toda a Igreja Católica apoiou o golpe e a igreja evangélica também. São da igreja evangélica os mais ligados à classe dominante. O representante máximo da Igreja Católica, o Cárdena, só ele tem uma fortuna de US$ 40 milhões. Ele é “a” oligarquia de Honduras.

Fonte: Revista Fórum



Alcântara e o interesse nacional



Luciano Rezende *

O Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA) continua, e de certa forma sempre será, tema controverso. Afinal, há muitos personagens em nossa sociedade que historicamente sempre se posicionaram contra todo e qualquer projeto nacional soberano.

Setores estes que em um passado recente comemoraram o vergonhoso Acordo de Salvaguardas Tecnológicas firmado em Washington, entre os Estados Unidos e o Brasil e são os mesmos que hoje semeiam celeumas e incentivam falsas contradições que devem ser rapidamente resolvidas, conforme as exigências da circunstância histórica atual, em defesa dos interesses e das perspectivas do conjunto da nação.

De fato, há de se comemorar a derrota do projeto levado a cabo pelo governo Fernando Henrique Cardoso, com total anuência dos grandes meios de comunicação, em que a estratégica base de lançamentos de Alcântara seria arrendada total e irrestritamente aos Estados Unidos pelo preço de nossa soberania elementar. Ademais, sequer a miserável quantia paga poderia ser investida no nosso programa aeroespacial e nenhuma autoridade brasileira teria acesso ao lugar e tampouco às informações sobre as operações ali realizadas. Dessa nos livramos.

Superada essa fase, parecia que o programa espacial brasileiro iria alçar vôos maiores, elevando a um novo patamar uma série de atividades concernentes, tais como a segurança nacional e a do espaço aéreo brasileiro, o monitoramento ambiental, as telecomunicações, além de promover uma série de atividades de interesse da comunidade científica.

Para isso, foi feito um tratado com a Ucrânia, que detém uma das mais testadas linhas de foguete, o Cyclone, além de uma enorme tradição em investimentos aeroespaciais, com tecnologia em fabricação de foguetes e plataforma de lançamento. Desse convênio foi criada a ACS (Alcântara Cyclone Space), uma empresa binacional onde caberia ao Brasil, dentre outras medidas, disponibilizar o Centro de Lançamentos de Alcântara, cobiçado por sua estratégica posição a 2,2 graus do Equador que a faz a mais competitiva entre todas as outras de todo o mundo (a base francesa de Kourou, na Guiana, o centro mais bem localizado do mundo para esses lançamentos, está a 5,2 graus da linha do Equador). E o mais importante: uma parceria com intercâmbio científico e tecnológico, ao contrário da proposta anterior com os EUA.

Contudo, vários entraves levantados contra a ampliação da área do Centro de Lançamentos de Alcântara, imprescindível para abrigar o projeto, vêm fazendo com que a Agência Espacial Brasileira já admita substituir Alcântara por outra base, menos competitiva.

Em recente artigo publicado no Valor Econômico (30/07) por Raymundo Costa, é relatado que o governo brasileiro já pensa em transferir parte do programa espacial para região próxima do porto de Pecém, no Ceará. Segundo a reportagem “a divisão tornou-se inevitável depois que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) baixou uma portaria decretando como área quilombola 78 mil hectares dos 114 mil hectares que constituem a península de Alcântara”.

O próprio presidente da ACS, o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, é enfático ao condenar o que ele chama de “burocratas” do Incra e das chamadas “lideranças” das comunidades quilombolas, os advogados do “museu antropológico” e aos agentes financiadores internacionais de estarem destruindo todo o esforço de instalação de um programa espacial completo no Brasil e alerta que a destinação de 781 km² da península para o “Território da Comunidade Quilombola de Alcântara” reduziu o espaço para atividades espaciais brasileiras ao atual CLA, impossibilitado de crescer para cumprir novas missões. Acrescenta ainda que somente em fluxo de caixa, o Brasil deixa de ganhar US$ 300 milhões por ano de atraso.

Não se trata de avançar o programa espacial brasileiro a qualquer custo. Óbvio que estudos rigorosos pelo Ibama sobre impactos ambientais e pesquisas diversas sobre a área quilombola devem ser realizados, assim como a adoção de iniciativas para que sejam evitados ou amenizados qualquer tipo de desarmonia local.

Entretanto, o interesse nacional deve prevalecer. Justas posições levantadas pela comunidade local (que inclusive tem muito a ganhar com o desenvolvimento da região) devem ser energicamente atendidas, com a autoridade moral de que quem as fazem são justamente aqueles que foram secularmente excluídos. Por outro lado, não se pode deixar organismos internacionais estranhos e de interesses opostos ao nosso programa espacial agirem livremente, patrocinando autêntico boicote ao CLA.

Não só os militares ou a comunidade científica têm interesse no avanço imediato do programa espacial (inclusive incorporando a ACS no Programa de Aceleração do Crescimento), mas toda a sociedade que percebe no cotidiano, desde a importância de um satélite para melhor prover sua comunicação, até o combate ao desmatamento em nossas florestas para amenizar o aquecimento global, a centralidade desta área. Em suma, é esse interesse nacional, que comunga com os interesses dos brasileiros, que precisa figurar em primeiro plano.